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quarta-feira, 18 de junho de 2014

A COLHEITA DA FAZENDA - Escola Fundamar: uma experiência premiada de Educação Infantil no campo (Pedagogia Investigativa)





APRESENTAÇÃO



Todo dia, cerca de 2,3 milhões de estudantes que vivem no campo são
transportados para as cidades rumo às suas escolas. Apenas 33%, segundo o
Censo Escolar 2002, estudam em escolas localizadas na zona rural. Muitas
dessas escolas estão mal aparelhadas – aproximadamente 44 mil delas nem
sequer possuem energia elétrica – e o desempenho de seus alunos tem se revelado
inferior aos que estudam na zona urbana, segundo as últimas avaliações feitas pelo
Ministério da Educação. O fato de o Brasil ser um país imenso, com 22% de sua
população infanto-juvenil vivendo no campo, torna ainda mais necessária a oferta
de ensino público de qualidade além dos limites das cidades, principalmente na
Educação Infantil, pois 67% das crianças brasileiras entre zero e seis anos se
encontram fora da escola. No campo, a pouca oferta piora esse quadro de exclusão.
Temos, portanto, um problema a enfrentar.
A Fazenda Escola Fundamar ganhou o Prêmio Criança 2002 da Fundação
Abrinq, na categoria Educação Infantil, por apresentar uma proposta que enfrenta
simultaneamente dois dos maiores desafios da educação no campo: qualidade e
garantia de transporte para a população atendida.
Criada pelos proprietários da Fazenda Santa Rita, no sul de Minas Gerais, com
apoio dos municípios de Machado e Paraguaçu e da Secretaria de Estado da
Educação, a Fundamar construiu, ao longo de duas décadas de existência, uma
respeitável consistência pedagógica. O papel destacado da memória, a valorização
da vida comunitária e dos saberes próprios daqueles que vivem na região, a
participação ativa dos pais na aprendizagem de seus filhos, a oferta de período
integral com cinco refeições diárias e oficinas de arte, o incentivo à criação do
material didático pelos próprios alunos e uma organização curricular
contextualizada fazem dessa experiência um estudo de caso a ser analisado,
debatido e aplicado. Sempre com as necessárias adaptações a cada contexto, como
recomendam as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do
Campo, editadas pelo Ministério da Educação:“a identidade da escola do campo é
definida pela sua vinculação às questões inerentes a sua realidade”. Ou seja, a
cada campo, uma escola que faça sentido a quem nele vive.
Nossa intenção ao publicarmos esta experiência é que mil outras escolas como
a Fundamar proliferem pelo país, como boas plantações. E que deem seus frutos na
forma de cidadãos conscientes e orgulhosos de serem o que são: homens que
vivem no campo e dele extraem sustento e orgulho.
Boa leitura.

Rubens Naves
Diretor-presidente da Fundação Abrinq
pelos Direitos da Criança e do Adolescente


“É notável a mudança nas crianças. Muitas chegam

desnutridas, pouco sociáveis, arredias. Algumas têm até o olhar

triste. Mas, passados alguns dias, elas começam a brincar, correr,

pular... ficam amigas umas das outras. Enfim, se tornam crianças

felizes. Com isso, ganhamos todos. A criança, um ambiente

saudável para seu desenvolvimento. A família, tranquilidade e

tempo para trabalhar. E nós, educadores, a gratificação de poder

contribuir de alguma forma para o desenvolvimento dessas

crianças.” (Janete de Souza Rocha, professora de Educação Infantil

da Escola Estadual Fundamar)
 

INTRODUÇÃO

Criada pela Fundação 18 de Março, em 1984, a Escola Estadual Fundamar atua
no município rural de Paraguaçu, em convênio com a Secretaria de Educação de
Minas Gerais. Desde o início, a escola se ergueu olhando nos olhos da população
local, reconhecendo-a como protagonista de uma história rural com tempo, espaço
e enredo próprios – muitas vezes desprezados pelos modelos urbanos. Ano a ano,
construiu uma proposta pedagógica inovadora, baseada na investigação e
construção da memória, da identidade e do conhecimento. Dentro e fora da sala de
aula, a criança encontra a oportunidade de viver uma infância plena, com tempo e
espaço para brincar, fazer amigos, explorar o mundo físico e imaginário e buscar
diferentes formas de expressão.
Para que o projeto pedagógico se concretize de fato, há um investimento
contínuo na formação de seus profissionais, adaptação do espaço físico e
elaboração de material escolar adequado ao contexto. Desde cedo, a Fundamar
também compreendeu a importância de promover a proteção integral da criança,
envolvendo a família, a comunidade e o poder público na garantia dos direitos
básicos da infância, como transporte, alimentação e saúde.
No decorrer de 2003, essa prática pedagógica tornou-se matéria-prima de um
cuidadoso processo de sistematização, que resultou nesta publicação. A Escola
Estadual Fundamar participou, assim, de um novo desafio assumido pela Fundação
Abrinq a partir do Prêmio Criança 2002: sistematizar as experiências vencedoras
para que sejam disseminadas pelo país ou, ainda, inspirem mudanças nas políticas
públicas.
A pedagoga com especialização em psicologia social Maria Lúcia Gulassa
visitou o local, observou espaços e rotinas, consultou os registros existentes e
realizou entrevistas individuais e coletivas com membros da equipe.Também foram
organizados encontros com os educadores, monitores, supervisores, mães e
assistentes sociais.
No processo de sistematização dessa experiência pedagógica, o grupo pôde
refletir sobre suas práticas, definir conceitos e organizar saberes a fim de melhorar,
potencializar, compartilhar e disponibilizar a experiência para que outros possam
aprender com ela. A partir de temas como “Quem é a população rural?”,“Qual é o
futuro dessa população?”,“Qual é a importância da creche no campo?”,“Quem é o
ser humano que queremos formar?”, o grupo teve a oportunidade de expressar seus
pensamentos, confrontar ideias, aprofundar reflexões e produzir textos coletivos
como registro desta trajetória.
Antes de enfocar especificamente o projeto de Educação Infantil da Escola
Estadual Fundamar, é importante falarmos sobre a origem e o desenvolvimento da
proposta pedagógica que norteia a iniciativa.Também merece atenção o contexto
cultural e social das famílias atendidas. Ao ver, ouvir e sentir as crianças e os
educadores, o impacto deste trabalho se revela e contagia. E esse contágio nada
mais é que o primeiro passo para a esperada disseminação dessa experiência bem sucedida
de Educação Infantil no campo, uma etapa desafiadora e decisiva para o
bom desenvolvimento da criança.
A Escola Estadual Fundamar é um projeto de educação instalado no município
de Paraguaçu, que atende também crianças de Machado – ambas áreas cafeeiras
do Sul de Minas Gerais. Criada em 1984, a escola conveniou-se, cinco anos depois,
à Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais. Hoje atende cerca de 500
crianças, da Educação Infantil ao Ensino Fundamental. São meninos e meninas
moradoras da zona rural e periferia das duas cidades, com idades entre 18 meses e
16 anos.
Mesmo com defasagem idade/série, nenhuma criança que vive no campo e
solicita matrícula é rejeitada pela escola. Afinal, a Fundamar nasceu justamente
para garantir o acesso dessas crianças à educação. Muitas delas não estudavam
porque não tinham como chegar até a cidade mais próxima.Também houve uma
especial atenção no sentido de criar uma escola que atendesse e respeitasse a
cultura do campo, sem reproduzir preconceitos ou currículos esvaziados de sentido
para aquele grupo. Comumente, depois de uma empoeirada caminhada, a criança
moradora do campo que chega à escola da cidade é rejeitada pelos colegas por
ser diferente,“da roça”. Sem ter as mesmas bases culturais previstas no currículo,
também não encontra seu lugar na rotina pedagógica. Acaba, então, sendo excluída
da escola, levando consigo a sensação de que é incapaz ou de que não faz parte
do grupo.
Atenta a essa realidade, a Fundamar se propôs a fazer um atendimento
baseado na valorização e no fortalecimento da identidade da comunidade local.
Construiu um projeto pedagógico próprio e tornou-se referência na região. Cuidados
e protegidos, seus alunos têm a oportunidade de vivenciar um rico contexto de
formação cultural e aprendizagem participativa e instigante.
A seguir, algumas características marcantes do projeto pedagógico da escola:
Atendimento integral
Contrariando a mentalidade de que a população que vive no campo prefere
seus filhos no trabalho a tê-los na escola, os alunos da Fundamar passam oito
horas diárias na escola. Além da escolarização formal, são oferecidas oficinas
culturais, como artesanato em fiação, tecelagem, bordado, tricô, cerâmica, cestaria
em palha, horta, marcenaria, aulas de música, biblioteca, recreação, datilografia e
informática. A escola também garante transporte para todas as crianças e
professores, cinco refeições diárias e encaminhamento médico e odontológico.

Ponto de encontro

Segundo a supervisora das oficinas e assistente social da Fundamar,Maria
Lúcia Prado Costa, o maior atrativo da escola, para as crianças, não é o transporte
ou a alimentação.“É o interesse em se encontrar”, afirma. A instituição tornou-se
ponto de encontro, um verdadeiro polo cultural no meio da roça.


A PROPOSTA DE TRABALHO

Convívio afetuoso

Os professores dizem gostar muito de trabalhar na escola. Afirmam que é
melhor do que trabalhar na cidade ou em qualquer outro lugar, com qualquer outra
população.Mas não lhes parece fácil explicar o porquê. Ficam se perguntando o
que há de tão especial. A primeira razão que surge é o jeito de ser dos alunos,
“receptivos, carinhosos, gentis”. Todos valorizam e respeitam os professores. Desde
bem pequenos, são cooperativos e companheiros entre si.

Acolhimento e troca

Outro ingrediente importante do ambiente escolar citado pelos professores é a
postura dos próprios adultos. Os mestres descrevem um clima de acolhimento,
potencializando a oportunidade de troca e aprendizagem. Para os profissionais da
educação, essa atitude contribui para que a escola seja realmente “construtivista”,
pois permite que crianças e professores estejam mais livres para construir e
reconstruir seus conhecimentos de forma significativa.

Metodologia investigativa

A metodologia investigativa também se revela como característica marcante da
escola. Continuamente, a equipe se propõe a conhecer as crianças, suas famílias, as
características da população rural e as formas como constroem seu pensamento.
Prevalece a concepção de que o conhecimento não está pronto ou acabado,
mas em constante movimento, sendo construído por todos – supervisores,
professores e alunos. Produzindo textos, elaborando mapas,maquetes ou jogos,
estudando as mudanças em si próprios e no contexto, todos produzem saberes.
“Quem somos?”“De onde viemos?”“Quais são as nossas dificuldades?”“O que
queremos?”“Como é nosso espaço?” São perguntas, entre tantas outras,
constantemente investigadas, discutidas, respondidas e registradas pelas turmas.

Tesouro da memória

Em busca de um sentido verdadeiro para a educação de crianças do meio rural,
a Fundamar descobriu a necessidade e a riqueza de trabalhar com as noções de
pertencimento, identidade, protagonismo e possibilidade de ser. Esses temas foram
assumidos como principal metodologia do trabalho, por meio da inserção da criança
no tempo e no espaço. A preservação da memória e da história é compreendida
como um processo de construção de identidade e pertencimento sociocultural,
intimamente ligado às características do espaço em que se vive.

Produção de conhecimento

Todos os alunos e professores são envolvidos na produção permanente de
conhecimento. Em vez de usar o material didático convencional, por exemplo,
tornam-se autores dos Cadernos de Estudos Sociais, que já são referência nas
escolas da região.
“Gostaria que nossos meninos e meninas saíssem da escola com um sentimento de alegria
pela vida, acreditando que o empenho em construir o mundo vale a pena. E mesmo quando as
coisas se tornarem difíceis, as portas se fecharem, às vezes injustamente, que eles se
apeguem ao sentimento de que têm sorte na vida: afinal tiveram uma escola que era a mais
bacana do pedaço.”
Maria Lúcia Prado Costa, assistente social e coordenadora das oficinas
Em paralelo, para permitir o livre acesso ao conhecimento acumulado, a escola
criou uma biblioteca com variados títulos de Literatura, Arte e História. Além disso,
mantém um banco de dados constantemente alimentado por todos os participantes
da escola e da comunidade, para que escrevam, desenhem ou fotografem.Tal banco
constitui-se, assim, em um acervo inédito e valioso sobre a vida e a cultura da região.


ESCOLA RURAL OU DO CAMPO?

No debate atual sobre educação para a população rural, está implícita a
necessidade de se reconstruir no imaginário coletivo uma nova visão do
campo, pois ainda é dominante a concepção do campo como um lugar de
atraso, prosaico, inferior à modernidade da cidade, sem futuro.
Nesse sentido, alguns teóricos da educação defendem o uso da expressão
“campo” em substituição ao “rural”, com o sentido de concebê-lo como um
espaço de vida e resistência, que contempla o modus vivendi do homem do
campo, respeitando as diferenças e especificidades de cada povo que nele
habita, um ethos engendrado nas relações interpessoais desse contexto.Nas
palavras de Bernardo Mançano Fernandes, o conceito “campo” expressa um
“espaço social com vida, identidade cultural própria e práticas compartilhadas
por aqueles que a vivem”, enquanto o “rural associa-se ao espaço territorial,
demarcador de área”.


O conceito de “campo” foi inicialmente introduzido pelos movimentos

sociais do campo e vem sendo incorporado também por alguns órgãos

governamentais envolvidos na discussão sobre as diretrizes para uma

educação do campo. Com isso,mais do q